Uma nova resolução do Conselho Federal de Farmácia promete chacoalhar a relação entre médicos e farmacêuticos no Brasil. A partir do próximo mês, os profissionais da farmácia clínica que possuírem o Registro de Qualificação de Especialista poderão prescrever medicamentos – até mesmo aqueles que necessitarem de receita médica –, renovar prescrições e solicitar exames para acompanhar tratamentos.
A ocorrência foi imediata. A Associação Paulista de Medicina classificou a medida como parte de uma “invasão silenciosa de profissionais não habilitados no ato médico”. Traduzindo: os médicos não gostaram nada da ideia de dividir espaço na arte de receitar comprimidos.
Por um lado, os farmacêuticos defendem que já são especialistas em medicamentos e, portanto, têm conhecimento técnico suficiente para prescrever e monitorar tratamentos. Além disso, os médicos temem que essa autonomia traga riscos aos pacientes – e, talvez, uma certa concorrência indesejada.
A briga, claro, tem nuances. É fato que o acesso à saúde no Brasil é um desafio. Conseguir uma consulta pode ser mais difícil do que encontrar um genérico barato. Se um remédio moderno pode ajudar a renovar aquela receita de hipertensão ou ajustar um tratamento simples, isso pode desafogar o sistema e beneficiar o paciente.
Mas há questões a serem debatidas. O que acontece quando o farmacêutico percebe que um medicamento não está surtindo efeito? Ele pode alterar a prescrição ou exigir encaminhar o paciente ao médico? E os exames solicitados – quem os interpretará?
No fim, a polêmica se resume a um velho dilema: proteger territórios profissionais ou facilitar a vida do cidadão? Enquanto médicos e farmacêuticos ajustam suas doses de indignação, os pacientes seguem aguardando, de preferência, sem efeitos colaterais.
Por Hermano Araruna
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