Se um médico brasileiro e uma especialista americana concordam sobre algo, talvez seja o caso de prestarmos atenção. Drauzio Varella e Kasley Killam vêm alertando sobre um fenômeno tão perigoso quanto silencioso: a solidão. Isso mesmo, aquele sentimento que parecia reservado para poetas melancólicos e idosos esquecidos agora é um problema de saúde pública. E, ao que tudo indica, é uma questão de tempo até que seja tratado como pandemia.
A ironia? Estamos mais conectados do que nunca. Redes sociais, mensagens instantâneas, reuniões por vídeo – o pacote completo da comunicação moderna. Mas, ao contrário do que prometiam os visionários do Vale do Silício, o resultado não foi um mundo mais unido, e sim um bando de gente rolando o feed sem ter com quem tomar um café no fim de semana. Um estudo da BBC aponta que pandemia, home office e falta de tempo são os grandes vilões desse enredo. No entanto, sejamos sinceros: o algoritmo também tem sua parcela de culpa.
O problema não é apenas emocional, é neurológico. Drauzio nos lembra que a falta de convivência real afeta nosso sistema cognitivo, podendo até acelerar quadros de demência. Ou seja, além de perdermos a habilidade de iniciar uma conversa sem um emoji de apoio, corremos o risco de esquecer como se faz isso completamente. E não é um processo rápido: segundo a The Conversation, leva-se cerca de 50 horas para que um conhecido vire amigo casual e mais de 200 horas para estabelecer uma amizade profunda. Agora pense no último amigo que fez depois dos 30. Pois é.
A geração que romantizou o trabalho e a ascensão profissional agora encara o grande “reviravolta na trama” da vida adulta: a solidão como efeito colateral do sucesso. Crescemos ouvindo que trabalho duro traz recompensas, mas ninguém avisou que uma delas poderia ser almoçar sozinho no escritório (ou na mesa da cozinha, olhando para um notebook). O resultado? Um exército de adultos que mal se lembram como é fazer amigos fora de grupos de WhatsApp e calls corporativas.
A solução não é complexa, mas tampouco é simples. Exige esforço. E, sejamos francos, poucos estão dispostos a investir 200 horas em um ser humano quando um vídeo de 30 segundos no TikTok já traz gratificação instantânea. Mas se a escolha for entre um feed infinito e a possibilidade de evitar um futuro de conversas solitárias com a Alexa, talvez valha a pena mandar aquela mensagem para um amigo que não vê há tempos. Quem sabe ele ainda se lembre de você.
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