O Supremo Tribunal Federal vive hoje um daqueles capítulos que misturam drama e ironia. A Primeira Turma da Corte decide se o ex-presidente Jair Bolsonaro se tornará réu por tentativa de golpe de Estado, o que, convenhamos, não é uma ocorrência rotineira nem para os padrões turbulentos da política brasileira.
Ontem, o ex-presidente foi ao STF, cercado por aliados, para acompanhar o início do julgamento. Disse estar “tranquilo” e garantiu que a denúncia não se sustenta. Um misto de otimismo e necessidade, já que, no palco da Suprema Corte, a última palavra nunca é dos réus.
A acusação, respaldada pela delação premiada de Mauro Cid — o ex-ajudante de ordens que passou de fiel escudo a peça-chave da investigação —, sustenta que Bolsonaro e aliados tramaram para invalidar as eleições de 2022 e mantê-lo no poder. Entre os denunciados, figuram ex-ministros, militares e assessores próximos. Um clube seleto, mas agora pouco exclusivo.
A defesa tentou barrar três ministros do julgamento — Moraes, Zanin e Flávio Dino — alegando parcialidade. Os pedidos foram negados. Assim, os cinco togados seguem no jogo: além dos três citados, Fux e Cármen Lúcia compõem a escalada da noite.
Os crimes listados não são leves: golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado e privacidade de patrimônio tombado. O pacote completo.
Se Bolsonaro virar réu, o Brasil assistirá a um julgamento criminal inédito para um ex-presidente. A defesa poderá apresentar provas e argumentos, e o processo deverá seguir para o segundo semestre. Até lá, o ex-mandatário seguirá com sua agenda de desmentidos e discursos inflamados, enquanto o STF, de toga e martelo, decidirá o enredo desse episódio da política nacional.
Comente sobre o post