Durante décadas, uma figura quase pedagógica, mas altamente eficaz, rondou o imaginário popular da Paraíba e arredores: o temido Papa-Figo. Não era um personagem de desenho, tampouco saído de uma saga de streaming. Era um homem supostamente doente, com aparência digna de hospital e hábitos que fariam qualquer nutricionista desmaiar: alimentava-se de fígados infantis, colhidos frescos, de preferência à noite.
O enredo, claro, não era contado com meias palavras. A história era direta: o Papa-Figo circulava em um carro preto, às vezes numa caminhonete suspeita, com um time de sequestradores infantis que faziam o trabalho sujo. A missão? Raptar crianças desobedientes, andarilhas ou que insistissem em ignorar o toque de recolher materno.
Servia como um eficiente dissuasor de travessuras noturnas, concorrendo em eficácia com a palmatória e o chinelo voador. Afinal, nada como a ameaça de ter o fígado arrancado por um senhor desconhecido para convencer um infante a não sair de casa depois do jantar.
Embora o mito tenha variações por toda a América Latina, em alguns lugares, o Papa-Figo é mais um traficante de órgãos do que um gourmet do medo, na Paraíba ele ganhou contornos quase pedagógicos. Era a pedagogia do susto, o “fica em casa” antes da pandemia, só que motivado por medo visceral (literalmente).
Hoje, o personagem foi aposentado do papel de babá improvisada e virou objeto de estudo e nostalgia. Alguns o enxergam como reflexo de desigualdades históricas, outros como fruto da desconfiança crônica no sistema de saúde e segurança. Há até quem veja ali uma crítica enrustida à medicina precária e à ideia de cura a qualquer custo, mesmo que custe o órgão de uma criança.
O Papa-Figo, portanto, sobrevive. Não mais na boleia de uma caminhonete preta, mas como parte do folclore que moldou gerações a base de susto. E convenhamos: num país em que o medo é política pública e as lendas costumam ser mais coerentes que os noticiários, ele só poderia ter se tornado patrimônio imaterial da cultura nordestina. Fígado nenhum discorda.
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