Ele já carregou água, gente, tijolo, feira, madeira e até promessa de político. Mas agora, quem carrega o jumento é a indústria da morte. O Brasil perdeu quase 95% de sua população de jumentos nos últimos 20 anos. E se ninguém fizer nada, o que restar pode virar estatística de extinção até 2030.
O vilão? Um mercado globalizado e silencioso. O abate desses animais para exportação de peles tem se multiplicado sem alarde, abastecendo a demanda asiática — especialmente da China, onde a pele do jumento é transformada no ejiao, um colágeno de luxo usado em cosméticos e supostos “remédios revitalizantes”. Resultado: o bicho que já foi companheiro de retirante agora é tratado como insumo descartável.
A queda populacional é vertiginosa. De acordo com pesquisadores, o número de jumentos no país, que já ultrapassou 1,3 milhão, despencou para menos de 80 mil em menos de duas décadas. E diferentemente de outras espécies em risco, o jumento sofre não por falta de adaptação ao mundo moderno, mas por excesso de exploração.
A pressão de ambientalistas, veterinários e defensores dos direitos dos animais tem crescido. Eles exigem que o poder público interrompa o ciclo de exportação predatória e estabeleça políticas eficazes de proteção — com fiscalização, incentivo à preservação e reconhecimento do jumento como patrimônio genético e cultural.
Enquanto isso, nos currais clandestinos do interior, a fila anda. E o silêncio em torno dessa crise — que mistura tradição, ganância e descaso — grita mais alto a cada dia. Se o jumento for mesmo extinto, não será por força da natureza. Será por omissão.
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