
Mais de 100 cineastas foram convidados pelo jornal O Globo para escolher os 10 melhores filmes brasileiros do século 21. O resultado da votação revelou um panorama diverso, ainda que desigual, da produção audiovisual nacional nas últimas duas décadas. O ranking final, com 50 títulos, mescla consagrados e emergentes, retratos urbanos e visões regionais, dramas íntimos e narrativas políticas.
No topo da lista, sem surpresas, está Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Citado por mais da metade dos votantes, o filme se consolidou como marco estético e narrativo do cinema nacional, com impacto internacional ainda ecoando. A segunda posição ficou com o documentário Ainda Estou Aqui (2023), de Walter Salles, um dos poucos títulos lançados recentemente a ocupar o pódio. O Som ao Redor (2012), estreia de Kleber Mendonça Filho na direção de longas, fecha o top 3 com seu olhar crítico sobre o cotidiano das classes médias urbanas.
Outros títulos amplamente lembrados foram O Auto da Compadecida (2000), adaptação dirigida por Guel Arraes, Tropa de Elite (2007), de José Padilha, e Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, que trouxe à tona questões de classe e afeto nas relações entre patroas e empregadas domésticas.
Embora a seleção mostre um cinema menos concentrado no eixo Rio-São Paulo e com mais vozes do Norte e Nordeste, os números revelam disparidades persistentes: apenas 13 dos 50 filmes foram dirigidos por mulheres, e apenas quatro por pessoas negras. Um desses destaques é Marte Um (2022), de Gabriel Martins, que figura entre os dez primeiros. O longa, ambientado na periferia de Belo Horizonte, acompanha uma família negra diante de sonhos e pressões sociais e foi o escolhido brasileiro para disputar uma vaga no Oscar de 2023.
A votação reuniu nomes como Fernando Meirelles, Petra Costa, Lázaro Ramos, Selton Mello, Laís Bodanzky, Carlos Saldanha e Marcelo Gomes. Cada participante indicou seus dez títulos favoritos desde o ano 2000. A metodologia levou em conta o número de menções, sem pesos adicionais, revelando um retrato coletivo das preferências da classe cinematográfica brasileira.
Ao final, a lista funciona menos como ranking definitivo e mais como mapa de afetos, temas e estéticas que marcaram o audiovisual brasileiro em tempos de transformação, tanto no país quanto na própria indústria. O conjunto ressalta a força criativa de um cinema que, mesmo enfrentando cortes de verbas, censura velada e instabilidade institucional, segue produzindo, provocando e emocionando.