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Entre pés e plantas: quando a língua coloca todo mundo no mesmo chão

Entre pés e plantas: quando a língua coloca todo mundo no mesmo chão

Por: Hermano Araruna
17/08/2025 às 09h13 Atualizada em 17/08/2025 às 12h13
Entre pés e plantas: quando a língua coloca todo mundo no mesmo chão
Foto: Reprodução

Se há algo democrático no português é o pé. Ele está no corpo, nas árvores, nos cabos das frutas, no verso das músicas e até nos impostos. O mais curioso é que convivemos com essa onipresença sem pestanejar: temos pé de feijão, pé de café, pé de manga. Mas também caminhamos com a “planta” do pé. E quando tropeçamos na etimologia, percebemos que tudo faz um estranho, mas coerente, sentido.

A palavra “pé” veio do latim pedis, e dela brotaram termos que ainda usamos diariamente. Pedestre é o que anda a pé, pedal é o que movimenta a bicicleta, pedestal é aquilo que se mantém de pé. Até “pedágio” tem o mesmo DNA: em Roma antiga, significava literalmente o imposto pago para colocar os pés em determinada estrada (Dicionário Houaiss). Nada mais apropriado para quem reclama de pagar caro por alguns quilômetros de asfalto.

O reino vegetal também herdou essa mania de linguagem. O cabinho que liga o fruto ao caule se chama pedúnculo, diminutivo de pedis. Já as folhas ficam presas ao galho por meio do pecíolo, de petiolum, que também quer dizer “pé pequeno” (Instituto de Botânica de São Paulo). A lógica é simples: mesmo sem andar, a planta tem pés, só que em miniatura.

E se até árvore tem pé, por que nós chamamos justamente a sola do pé de “planta”? Aqui o idioma foi ainda mais inventivo. “Planta”, em latim, significava “rebento” ou “broto”. Era a parte que tocava o chão, que se fixava. Por extensão, virou nome para a base do pé humano. Em outras palavras, cada passo que damos é uma espécie de broto linguístico.

O português gosta de brincar com os pés, às vezes com ironia. “Impedir”, por exemplo, vem de impedire, “não deixar mover os pés”. Já o contrário, expedire, deu origem a expedição: libertar os pés para seguir viagem (Michaelis). No xadrez, o peão também nasceu dessa mesma raiz: do latim pedonis, o que anda a pé.

No fim das contas, não existe neutralidade. Nossa língua insiste em colocar pés em tudo: nas árvores, nos frutos, nas ruas, nas palavras. Talvez seja uma forma de nos lembrar de que, seja com raízes ou com passos, tudo na vida precisa de base.

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