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O peso do “só mais uma”: minha batalha contra a armadilha do álcool

O peso do “só mais uma”: minha batalha contra a armadilha do álcool

Por: Hermano Araruna
24/08/2025 às 08h23 Atualizada em 24/08/2025 às 11h23
O peso do “só mais uma”: minha batalha contra a armadilha do álcool
Foto: Reprodução

"Entre todas as frases que já repeti para mim mesmo na luta contra o alcoolismo, nenhuma ecoa tanto quanto esta: “só mais uma”. Ela sempre parecia inofensiva, quase um acordo temporário comigo mesmo. No fundo, era uma armadilha, um mecanismo que misturava o desejo do meu corpo, a confusão da minha mente e a incapacidade de lidar com a dor sem anestesia.

Aprendi que o álcool mexe diretamente no sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina e criando a ilusão de prazer imediato. Cada gole parecia afastar o desconforto, ainda que por minutos. Meu cérebro aprendeu a interpretar aquela promessa de “mais uma dose” como um atalho para sobreviver ao que eu não queria sentir, ansiedade, tristeza, vazio.

Só que esse atalho me cobrava caro. Psicólogos chamam isso de racionalização: eu dizia a mim mesmo “só hoje”, “só para relaxar”, “amanhã eu paro”. Eram justificativas que me davam a sensação de estar no controle, quando, na prática, o controle já tinha se perdido. Lembro de ter lido o psiquiatra Gabor Maté dizendo que "a dependência é uma guerra interna: de um lado, a parte racional pedindo para parar; do outro, a parte emocional exigindo o alívio imediato". Eu vivia exatamente nesse campo de batalha.

O problema é que essa “última dose” nunca era a última. Cada vez que falhava na promessa, a culpa me esmagava. E a culpa, em vez de me afastar da bebida, me empurrava de volta para ela. Eu entrava em um ciclo que parecia não ter saída.

Foi só em terapia que comecei a entender que eu não mentia apenas para os outros. Eu mentia para mim mesmo. Como disse a psicóloga Karen Watson, o “só mais uma é a tentativa desesperada de conciliar o desejo de parar com a incapacidade de fazer isso sozinho". E foi essa consciência que me fez aceitar que eu precisava de ajuda.

Hoje sei que a recuperação começa quando a gente desmonta essas desculpas internas. É aprender a reconhecer os gatilhos, fortalecer escolhas e encontrar formas mais saudáveis de lidar com a dor. Dizer não ao “só mais uma” é muito mais do que recusar um copo: é recusar a ilusão que ele carrega".

Declarações de um alcoólatra em tratamento

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