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Netflix contrata executivo para anúncios de bets; e o Brasil nessa?

A gigante do streaming criou um cargo inédito para atrair a verba das casas de apostas. No Brasil, onde as bets movimentam R$ 30 bilhões por mês, a lei recém-apertada alcançaria até a plataforma

Por: Charlston
07/08/2026 às 16h25 Atualizada em 07/08/2026 às 17h54
Netflix contrata executivo para anúncios de bets; e o Brasil nessa?

A Netflix fez sua primeira contratação dedicada exclusivamente à publicidade de apostas e jogos a dinheiro real (RMG, na sigla em inglês): o britânico Ian Hunter, que assumiu o posto em julho de 2026, baseado em Londres. É o movimento mais claro da gigante do streaming em direção ao dinheiro de um setor que cresce e preocupa em todo o mundo, especialmente no Brasil.

A aposta tem lógica de negócio. A receita total da Netflix no ano fiscal de 2025 foi de US$ 45,3 bilhões, sendo US$ 42 bilhões vindos de assinaturas. A meta declarada da empresa é dobrar a receita publicitária até 2027. O plano com anúncios, lançado no fim de 2022, alcança mais de 250 milhões de usuários ativos mensais, segundo dado de maio de 2026. Somam-se a isso os acordos recentes de transmissão ao vivo com a MLB, a NFL e os direitos das Copas do Mundo Femininas da FIFA de 2027 e 2031: justamente o tipo de conteúdo que as casas de apostas mais querem patrocinar.

Hunter passou mais de oito anos na Snap Inc., dona do Snapchat, onde atuou em gestão de contas, parcerias comerciais e liderança de vendas e chegou a comandar, no Reino Unido, a vertical de jogos, apostas e entretenimento. Antes, foi gerente global de marketing digital do The Stars Group (2017–2019), dono do PokerStars e das marcas BetStars, SkyBet e FOX Bet, grupo que se fundiu à Flutter Entertainment em 2020.

Captura de tela do perfil de Ian no LinkedIn

"Com o crescimento dos eventos ao vivo, do conteúdo premiado e de um público extremamente engajado, há uma enorme ambição em toda a equipe", escreveu o executivo em publicação nas redes sociais, na qual disse ter sido atraído "pelo momento vivido pela companhia e pelas oportunidades de crescimento do negócio de publicidade".

Por que o Brasil observa

A contratação levantou a dúvida inevitável: os anúncios de apostas chegariam também às telas brasileiras? O país tem mercado de bets regulado desde janeiro de 2025 (Lei 14.790/23) e é um dos maiores do mundo no segmento. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), os gastos com apostas online ultrapassam R$ 30 bilhões por mês (dado de abril de 2026), com crescimento explosivo desde 2023, alta da inadimplência severa e perfil concentrado em homens acima de 35 anos e famílias de baixa renda. No Distrito Federal, mais de um terço da população apostou nos últimos 12 meses, segundo o IPEDF (Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal), com predominância nas faixas de renda entre R$ 1.518 e R$ 3.000.

Há ainda a dimensão da saúde. A ludopatia, nome dado ao vício em jogos, encontrou terreno fértil nas bets, que ascenderam no país a partir de 2020, como explicou a advogada Debora Nicodemo, especialista no tema, em entrevista à comunicadora Flavia Sobral no programa Ver&Viver.

As regras que alcançariam a Netflix

Se a empresa decidir veicular anúncios de bets no Brasil, encontrará um cerco regulatório recém-apertado. O pacote normativo de julho de 2026 (Portarias SPA/MF 1.964, Interministerial 73 e Senacon 71) obriga toda peça publicitária de apostas a exibir advertência ocupando ao menos 10% do anúncio, com frases como "Jogo pode causar vício" e "Jogo não é investimento". As normas também proíbem associar apostas a sucesso financeiro, celebridades ou fonte de renda, e estendem a responsabilidade legal a toda a cadeia publicitária, incluindo as plataformas que veiculam. As multas chegam a R$ 14 milhões pela Senacon e a R$ 2 bilhões pela Secretaria de Prêmios e Apostas.

O outro lado

Apesar do alarde, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) avalia que as apostas online não são a principal causa de endividamento no Brasil. A entidade se baseia em pesquisa do Datafolha segundo a qual a parcela de brasileiros que aposta, de 7%, se mantém estável desde 2024, contrariando a percepção de aumento desproporcional do hábito desde o início do mercado regulado.

Procurada pela reportagem, a Netflix Brasil não respondeu até a publicação.

Com informações de SBC News e Poder360.

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