
Em tempos de comida ultraprocessada e receitas que saem do micro-ondas direto para o esquecimento, o umbu segue firme, resistente e cheio de bossa. Pequeno no tamanho, mas gigante na identidade nordestina, ele não é só uma fruta — é um marcador de tempo, de espaço e de afetos.
Basta o verão avançar no calendário para que feiras e mercados da Paraíba ganhem nova trilha sonora: “Olha o umbu! Gostosim!” Grito de vendedor que, para muitos, vale mais do que despertador ou notificação de celular. É a senha para lembrar que a infância ainda cabe num litro da fruta e que o gosto da terra pode ser servido em forma de suco, geleia ou umbuzada.
A umbuzada, aliás, é um capítulo à parte. Feita no improviso e no capricho, mistura leite, polpa e memória numa receita que parece ter sido passada de geração em geração por olfato, mais do que por papel. É aquele tipo de comida que dispensa gourmetizações: quanto mais simples, mais arrebatadora.
E enquanto os nutricionistas batem palmas para a quantidade de vitamina C e sais minerais presentes no umbu, os nordestinos preferem lembrar da utilidade prática: refrescar a alma no calor e trazer sustento na escassez. Ele brota no semiárido, cresce entre pedras, resiste à seca e ainda dá sabor ao cotidiano de milhares de famílias. Não é pouca coisa.
Cultivado por pequenos produtores, o umbu não é apenas alimento — é economia solidária, é agricultura familiar, é ecologia regional. É o tipo de bem cultural que, se fosse estrangeiro, talvez ganhasse status de “superfood” em loja de luxo. Aqui, por sorte, segue sendo vendido no litro e com sorriso de brinde.
Se passar por um mercado e ouvir o grito conhecido, não hesite. Compre. Leve pra casa. Espreme. Coa. Adoce. Beba. E ao primeiro gole, entenda: o umbu não é só fruta. É um reencontro com o que ainda vale a pena guardar.
Receita de umbuzada